Casa da Mulher Indígena

Menção honrosa em concurso público nacional de arquitetura – 2026



“Precisamos construir juntos um trajeto de vida e reconstrução, que se baseie no encontro entre os povos, no cuidado com nossa Terra, na interação positiva de saberes. (…) Cuidar da Mãe Terra é, no fundo, cuidar de nossos próprios corpos e espíritos. Corpo é terra, floresta é mente. Queremos reflorestar as mentes para que elas se somem para prover os cuidados tão necessários com nosso corpo-terra.”

Manifesto Reflorestarmentes. ANMIGA. 


A casa da mulher indígena será um espaço construído a partir dos saberes ancestrais, que buscam na integração e no respeito ao território e ao meio natural as lições para a configuração de ambientes convidativos ao acolhimento e à vivência.

A CAMI será composta por um conjunto de pavilhões baseados em técnicas construtivas tradicionais, revisitadas a partir da perspectiva das inovações contemporâneas. Os pavilhões resultam da combinação de unidades modulares, flexíveis e adaptáveis, em estrutura de madeira certificada, suspensas sobre palafitas.

As unidades modulares buscam na cultura ancestral as respostas para ambientes confortáveis e resilientes

(1) varandas internas e externas enquanto zonas de amortecimento e transição, que ajudam a preservar o conforto térmico dos ambientes, para todos os biomas; 

(2) estruturas suspensas, que “pisam suavemente na terra”, protegem os espaços da umidade e se adaptam às diversas condições de topografia, com o mínimo de movimentação de terra; 

(3) as estruturas em madeira nativa certificada e as vedações em tijolo cerâmico maciço de solo cimento garantem a economicidade e a sustentabilidade da proposta; 

(4) painéis (muxarabis) em madeira nativa certificada protegem as fachadas e garantem a privacidade dos ambientes internos, ao mesmo tempo em que permitem ventilação e iluminação naturais.

respeito ao meio natural: solução flexível e adaptável

Trata-se de solução baseada no respeito ao meio natural, por ser flexível e adaptável às variações geográficas e culturais. Permite diferentes configurações espaciais e implantações; possibilita o atendimento de demandas futuras de expansão ou de mudança e acolhe as diversas expressões culturais de cada região.

replicabilidade e rapidez de execução

a solução modular e pavilhonar, combinada à técnica construtiva tradicional (estruturas em madeira certificada com vãos reduzidos, peças estruturais com pequenas seções e vedação em tijolos de solo cimento prensados – que dispensam a queima) contribuem para a replicabilidade e a rapidez de execução.

adequação aos diversos biomas

a solução proposta, devido à alta inércia térmica e à adaptabilidade às diversas condições geográficas, é adequada aos diversos biomas (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal). As adequações necessárias se limitam às esquadrias e aos muxarabis, que no caso de parte da Mata Atlântica, do Cerrado (temperaturas mínimas entre 8 e 12 graus no inverno) e, em especial do Pampa (temperaturas mínimas entre 1 e 6 graus no inverno), precisarão ser complementadas por painéis internos de correr em vidro, dispensáveis nos casos da Amazônia, Caatinga e Pantanal.

segurança e privacidade

a segurança e a privacidade das mulheres indígenas serão garantidas por um conjunto de soluções:

(1) a setorização funcional entre a área institucional e a vivência, com pavilhões independentes e controles de acesso;

(2) elementos de vedação (muxarabis) que permitem iluminação e ventilação, ao mesmo tempo em que garantem a privacidade do espaço interno;

(3) a vegetação, que além de cumprir função paisagística e ambiental, contribui para a formação de barreiras naturais, tanto de visibilidade quanto de acesso.

economicidade e exequibilidade

ao mesmo tempo em que tem como fundamento o respeito à cultura ancestral, o projeto foi elaborado de maneira a garantir a economicidade, a exequibilidade e a viabilidade da contratação pública. Todos os materiais utilizados nas edificações estão referenciados no SINAPI ou são de fácil composição.

paisagismo e soluções baseadas na natureza

o principal objetivo da proposta de paisagismo é criar uma atmosfera de imersão e de respeito à ancestralidade. serão utilizadas espécies nativas ou adaptadas ao bioma e serão preservadas, sempre que possível,  as espécies existentes. o paisagismo será integrado aos hortos e pomares dedicados ao cultivo de espécies utilizadas na culinária e em rituais e práticas de cura dos povos indígenas da região. serão utilizadas soluções baseadas na natureza integradas ao paisagismo, como os jardins de chuva, bacias de contenção e bacias de evapotranspiração, como elementos naturais de drenagem, retenção de águas pluviais e tratamento de esgoto.

grafismos dos povos indígenas: identidade e resistência

símbolos de identidade, memória, resistência e expressão cultural, os grafismos indígenas carregam histórias e pertencimento étnico. a casa da mulher indígena é idealizada de maneira a acolher, na expressão arquitetônica, a diversidade de expressões estéticas que caracterizam cada etnia e região. seja na configuração dos muxarabis, nos fechamentos dos guarda-corpos, nos diversos elementos de vedação, ou nos objetos, acessórios e adereços, móveis ou fixos, que irão integrar cada espaço, a expressão estética será adaptada conforme o contexto (região ou bioma) em que a CAMI se insere. mesmo com denominações diferentes conforme a etnia, vários padrões (em geral referências a elementos da fauna da flora) estão presentes em etnias de biomas diversos, com pequenas variações.

eficiência energética e sustentabilidade

as soluções projetuais adotadas, que priorizam soluções passivas e alta inércia térmica, com materiais de baixo impacto ambiental; técnicas construtivas tradicionais e vernaculares e os sistemas de envelopamento de fachadas adaptáveis aos vários contextos, garantem a sustentabilidade da solução, tanto do ponto de vista ambiental quanto social, econômico e cultural

em complemento, estão previstos: painéis fotovoltaicos (a inclinação das coberturas dos pavilhões favorece a instalação dos painéis) que garantem a autonomia da edificação; sistemas de coleta e reaproveitamento de águas pluviais e sistema de esgoto sustentável (em especial para as situações em que não houver redes públicas de coleta), por meio de BET (bacias de evapotranspiração) associada a hortas comunitárias e elementos paisagísticos

acessibilidade universal

todos os ambientes, espaços de transição e de circulação são acessíveis. no caso de desníveis, foram priorizados planos inclinados (inclinação inferior a 5%). as soluções de acessibilidade também incluem os aspectos sensoriais, associados às texturas, cores e incidência de luz dos ambientes.

o pátio/terreiro

O pátio/terreiro tem papel de destaque no conjunto, devido aos valores cosmológicos, antropológicos e culturais das atividades que serão realizadas no espaço. Tal destaque se materializa pela forma circular, que se distingue dos demais espaços e por localização na implantação do conjunto. Além de espaço simbólico, o pátio será também o elemento articulador do conjunto de espaços de vivência. Seguindo as premissas anteriores, o pátio também será executado em estruturas de madeira, sobre palafitas. Neste caso, serão utilizadas vigas curvas compostas por lâminas de madeira esbeltas, combinadas em sistema sanduíche com barrotes espaçados, de simples execução.

madeira nativa de manejo sustentável

por se tratar de recurso renovável, de baixo impacto ambiental e vinculado aos saberes ancestrais, a madeira será o material predominante da CAMI. serão utilizadas madeiras nativas provenientes de manejo sustentável certificado, nos termos da Instrução Normativa do Ministério do Meio Ambiente (MMA). trata-se de madeira cuja extração é planejada e legalizada, que garante a regeneração da floresta e mantém sua biodiversidade. o Plano de Manejo deverá incluir inventário de árvores e técnicas de baixo impacto, preservando áreas de proteção e espécies jovens. deverão ser priorizados recursos provenientes de planos de manejo comunitário em Terras Indígenas, nos termos da Instrução Normativa 12/2022, publicada conjuntamente pelo IBAMA e pela FUNAI. não deverão ser utilizadas espécies classificadas como “criticamente em perigo” (CR) ou “em perigo” (EN), conforme definido na Portaria MMA 443 (“Lista Nacional Oficial de Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção”). a fim de garantir a sustentabilidade da iniciativa, deverão ser priorizadas as espécies nativas disponíveis em cada região ou bioma.